terça-feira, 9 de março de 2010

Pensamento Ecológico



“Tudo o que existe e vive deve ser cuidado para continuar a existir. A essência humana reside na capacidade de tomar este cuidado. Talvez seja este, o maior desafio da capacidade inventiva do ser humano, despertar a sensibilidade e a responsabilidade com os cuidados com a terra...” - Leonardo Boff


Nasci entre duas gerações bem diferentes: a geração de meus pais, que via a natureza como fonte inesgotável de todos os recursos e capacidade infinita de receber nossos restos, e a geração dos meus filhos, que busca desesperadamente por uma saída sustentável que evite o colapso ambiental já anunciado pelos cientistas, no caso de não sermos capazes de mudar nosso rumo. Sou contemporâneo desta triste época, em que se contabilizam os prejuízos sociais e ambientais como nunca antes ocorreu na história da humanidade!

Nunca houve uma apropriação tão grande dos recursos naturais em nome do progresso e do desenvolvimento humano, mas que só serviu para produzir uma brutal concentração de renda e exclusão social por um lado, e poluição e degradação ambiental por outro. O mundo atual é uma ‘fábrica’ gigantesca e incontrolável de exclusão social e de degradação ambiental.

Os padrões de produção e consumo no mundo, hoje, estão 20% acima da capacidade de reposição da biosfera, isso considerando que existe mais de 1 bilhão de pessoas passando fome. Entre 1500 e 1850 foi eliminada uma espécie em cada 10 anos. Entre 1850 e 1950 foi eliminada uma espécie em cada ano. Em 1990 desapareceram 10 espécies por dia. Atualmente, cerca de uma espécie está desaparecendo por hora. Entre 1975 e 2000 desapareceram aproximadamente 20% de todas as espécies de vida. Para muitos cientistas esta é a maior onda de extinções desde o desaparecimento dos dinossauros há 65 milhões de anos. Quase 24% dos mamíferos, 12% dos pássaros e quase 14% das plantas enfrentam essa ameaça, em grande parte devido à destruição do seu habitat. Somente no Brasil, mais de 87 culturas humanas foram perdidas e, nos próximos 10 a 20 anos, o mundo verá a perda de milhares de espécies de plantas e de animais.

A partir de 1950 perdeu-se a quinta parte da superfície cultivável e das florestas tropicais. De 1970 a 1988 o desmatamento foi de 20 milhões de hectares. Atualmente, cerca de 10 milhões de hectares são desmatados ou degradados por ano, o que representa uma área do tamanho de um campo de futebol a cada dois segundos.

A floresta amazônica está desaparecendo três vezes mais rápido do que na década de 90. 20% dela já foi destruída. 80% das florestas originais já foram destruídas e somente 20% das florestas nativas permanecem intactas. Uma árvore é plantada para cada dez que são derrubadas. Nesse ritmo, a floresta tropical restante estará destruída até 2035. O planeta já perdeu metade de sua extensão florestal original, principalmente nos últimos 100 anos.

Na última metade do século passado o mundo perdeu 62% de suas reservas de água potável. A quantidade de água potável que está acessível – seja em lagos, rios ou represas – representa menos de 0,25% do total de água doce. Em 1995, 27% da população da América Latina e do Caribe não tinham acesso à água potável. Estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas no mundo não tenham acesso à água potável e mais de 5 milhões (um número dez vezes maior que o de mortos em guerras em todo o mundo), crianças na maioria, morram, a cada ano, de doenças causadas por água contaminada que provoca mais de 1 bilhão de enfermidades.

A cada ano 500 milhões de toneladas de lixo perigoso são produzidas no mundo. Apenas os Estados Unidos da América são responsáveis por 50% desse lixo! A biodiversidade dos ecossistemas de água doce diminuiu 45% de 1970 até 1996. Já o ecossistema marinho perdeu 35% de sua biodiversidade nestes mesmos 26 anos. O consumo de fertilizantes aumentou de 12 para 80 milhões de toneladas por ano no intervalo de 26 anos.

Quando nossos desejos e não nossas necessidades passam a comandar as escolhas que fazemos, nada nos parece ser suficiente! A inveja, a cobiça, a ganância, a sede de poder ou de riqueza, foram transformados em valores a serem cultivados. O que conta não é “eu preciso”, mas “eu quero, eu posso, eu mereço”. E aí, não basta ter uma boa casa para morar, ou uma boa roupa para vestir, ou um dinheiro guardado para os tempos difíceis. Queremos mais. Queremos ter muitas e muitas casas, muitos e muitos carros e roupas, muitos e muitos milhões e bilhões guardados! Queremos a bolsa, o tênis, a roupa de marca! Queremos o carrão da marca preferida pelas Estrelas e Artistas, por que merecemos e não por que precisamos!

As pessoas querem ser reconhecidas, amadas, respeitadas, e isso é bem humano e legítimo. Entretanto, em vez escolher o caminho de se tornarem pessoas melhores, menos egoístas, mais solidárias, as pessoas tem preferido exibir seus bens como se fossem colares e miçangas. Os ricos se esforçam para mostrar carros, iates, mansões, contas bancárias cada vez maiores que a dos outros ricos que invejam. Guardadas as devidas proporções, os pobres também fazem o mesmo ao, por exemplo, gastar boa parte do salário para pagar cerveja no bar para os ‘amigos’, quando às vezes falta leite em casa para os filhos, ou quando gasta boa parte do salário para comprar um tênis caríssimo que está na moda, ou mesmo apresentar-se com uma imitação, para parecer aos demais que pode comprar algo tão caro!

Na ânsia por mais e mais, sofrem com alegrias efêmeras, pois logo serão superados por alguém que invejam. Se possuir um milhão os elevou à lista dos que possuem um milhão, que antes invejavam, os deixou de fora da lista dos que tem um bilhão, e que passam agora a invejar!

Não é apenas a natureza que vem sofrendo com nossa ganância e consumismo. As pessoas estão se embrutecendo em relação aos nossos próprios semelhantes e mais ainda aos que não são semelhantes, como os animais, que têm tanto direito à vida e à qualidade de vida quanto à espécie humana, e que foram transformados em simples objetivos desprovido da capacidade de sofrer ou sentir dor!

Nosso estilo de vida tem transformado a Vida numa espécie de corrida de obstáculos pelos recursos naturais, onde os que podem mais chegam na frente e se apropriam dos recursos mais que os outros. Ainda que para isso tenham de deixar atrás de si uma terra arrasada e pessoas na miséria! Somos cada vez mais insensíveis ao sofrimento alheio, e em vez de dirigir nossa crítica a um sistema econômico que permite e estimula a concentração de renda, preferimos criticar os pobres por serem ‘preguiçosos’ e viverem de ‘jeitinho’, de ‘malandragem’... logo, vivem na pobreza por que merecem! E aí, nos surpreendemos quando vemos jovens abastados divertindo-se em ‘queimar mendigos’ ou surrar ‘prostitutas’.

A maior poluição que existe está invisível aos nossos olhos. Ela escureceu nossa capacidade de ver a Vida como o nosso mais precioso bem e confunde nossos sentidos e valores. Queremos ser felizes, e o que conseguimos é ser cada vez mais infelizes e tornar as pessoas infelizes. Neste sentido, a cada pessoa que morre, a Vida faz um apelo ao nosso bom censo, afinal, ninguém, por mais rico e poderoso que seja, conseguiu sair vivo deste mundo e muito menos levou consigo um único níquel de sua fortuna!

É um erro a maneira como a nossa espécie humana tem lidado com o planeta, usando os recursos naturais como se fossem ilimitados. E logo nós, que nos julgamos mais inteligentes que as outras espécies! É um erro achar que somos os donos da Natureza e podemos fazer com ela o que quisermos. Hamawt’a afirmou “o dia em que vocês envenenarem o último animal... quando não existirem nem flores, nem pássaros, se darão conta de que dinheiro não se come.” Segundo a Carta da Terra, “a escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.”

Ao propor aos alunos, pais, professores, clientes, funcionários que repensem seus hábitos e atitudes, a Escola, Empresa ou organização deve ser capaz de demonstrar ao público que também está fazendo o mesmo, assumindo publicamente Compromissos Sócio-Ambientais com a Sustentabilidade e demonstrando que tais compromissos apóiam-se em ações concretas, indo além do marketing ou de declarações pomposas que acabam não se cumprindo. Para começar é preciso sensibilizar o público de interesse levando em consideração os diferentes graus de consciência e de ações ambientais já em andamento, de forma a poder compartilhar e equilibrar a política ambiental entre todos os departamentos.

Definitivamente, este é um caminho sem voltas, pois a tendência é de aumentar a cada dia a consciência ambiental na sociedade. Resta saber se o Planeta conseguirá sustentar a vida humana pelo tempo necessário até que todas as mudanças que estão em curso consigam produzir seus efeitos. Mas a crise nos faz crescer e pode nos fazer encontrar os novos caminhos!

Todos nós dese¬jamos viver num mundo melhor, mais pacífico, fraterno e ecológico. O problema é que as pes¬soas sempre esperam que esse mundo melhor comece no outro. Por exemplo: preferem esperar que um vizinho ou amigo con¬vide para plantar uma árvore ou começar uma coleta seletiva de lixo, em vez de tomar a iniciativa.

Se quisermos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também que nos esforcemos para mudar nossos valores consumistas, hábitos e comportamentos que provocam poluição, atitudes predatórias com os animais, as plantas e o meio ambiente. Mas só isso não basta, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas, mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Por isso, precisamos, além de nos tornarmos ambientalmente corretos em nossas ações, nos esforçar-nos para sermos também mais fraternos, democráticos, justos e pacíficos com os nossos semelhantes.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". - Eduardo Galeano


Acho que a questão mais fundamental não é se o ser humano irá conseguir escolher ser sustentável eco-socio-economicamente ou se irá permanecer na atual trajetória suicida. Por trás dessas escolhas estão questões muito mais antigas no espírito humano sobre as quais filósofos e líderes religiosos têm se debruçado a milênios: como o ser humano pode ser sensibilizado a escolher entre a generosidade e a mesquinhez, o engajamento e a indiferença, a ganância e a solidariedade? A história nos mostra que algumas sociedades conseguiram mudar, e por isso prosperaram, e outras não, e por isso desapareceram. Albert Einstein dá uma dica: "Nosso maior erro é fazer sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.”

O desejo de ser feliz, de ser aceito, respeitado, reconhecido em sua sociedade é bem humano e tem impulsionado nossas vidas. Entretanto, a sociedade de consumo conseguiu capturar nosso imaginário com a falsa idéia de que para sermos felizes ou reconhecidos, precisamos ter em vez de ser! Precisamos trabalhar para trocar nosso tempo de vida útil por dinheiro, para com este dinheiro ter acesso aos bens que irão atender às nossas legítimas necessidades e também aos nossos desejos de felicidade e reconhecimento. Cada produto que consumimos, tem seus recursos retirados de um único lugar, o Planeta, e seus restos gerarão lixo que serão destinados também a um único lugar, o Planeta! Não existe ‘lá fora’ no Planeta Terra. As pedras que atirarmos para cima cairão em nossas cabeças, ou nas cabeças de nossos filhos e netos! As conseqüências das mudanças climáticas e do esgotamento dos recursos naturais atingirão a todos, mas as perdas serão maiores para aqueles que não dispõem de recursos para se defender, como os mais pobres.

É falsa a idéia de que o problema em nossa sociedade é devido ao crescimento populacional. Se a quantidade de gente num lugar fosse determinante para avaliar a maneira com lidamos com os recursos naturais, então, em cidades com poucos habitantes o meio ambiente estaria preservado! Se gente demais fosse o problema, gente de menos seria a solução, e está longe disso. Uma única pessoa com uma caixa de fósforos sozinha no meio de um imenso cerrado num tempo seco pode causar mais danos à natureza que milhões de pessoas vivendo de maneira sustentável numa cidade! Ao lado da sociedade de consumo somos também a sociedade do desperdício! Quase a metade dos alimentos produzidos é desperdiçada, ou por que apodrecem pelo caminho, ou por que o preço de mercado não compensa sua venda, ou por que deixamos sobrar no prato, etc.! Então é mentira que existam milhões passando fome por que o Planeta já não consegue produzir alimentos para todos. Gandhi tentou nos alertar quando disse que “a Terra tem o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos”.

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto ele nos remete a uma reflexão sobre o consumo irracional dos recursos naturais, assim como a falta de humanismo da sociedade capitalista.

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Olá, obrigado por seu comentário!
Um abração do
Vilmar