sexta-feira, 12 de março de 2010

Confundido com terrorista



"Viver é correr risco." - Stephane Peter Hansel


Como não tinha onde morar, ingressar no serviço militar parecia-me uma boa opção, pois ganharia casa, comida, roupa. Hoje, isso seria impossível. Atualmente, o Exército tem iniciado o expediente às segundas-feiras, a partir das 13 horas e encerra às 18 horas, sem refeições, e não tem ‘rancho’ na sexta, sábado e domingo! O jornalista Alexandre Garcia denunciou o fato que desde os anos 80 as forças armadas vêm sendo sucateadas, enquanto muitos vizinhos se armam e alerta que a melhor maneira de derrotar um exército, sem precisar dar um tiro, é cortar-lhe os suprimentos. “Saladino derrotou assim os cruzados cristãos; a Rússia derrotou Napoleão e Hitler porque faltaram suprimentos aos invasores. Nas Malvinas, os ingleses cortaram os suprimentos da ilha.”

Eu tinha a possibilidade de ficar como sobra de contingente e não servir, pois um professor na escola onde estudei era sargento naquela unidade e estava na hora do meu recrutamento. Ele sugeriu me dispensar, mas, meio constrangido, disse que preferia servir, e fui classificado como voluntário. Ele não conhecia a minha história e dificuldades, e ficou sem entender a minha decisão e eu tinha vergonha de dizer a ele que era por que não tinha onde morar, não tinha emprego, e passava fome... Assim, passei a morar no Quartel do 30º Grupo de Artilharia, no Barreto, em Niterói (RJ), onde fui designado para o setor de comunicações, na Bateria de Comando. Era conhecido como ‘percevejo’, alusivo aqueles alfinetes que ficam grudados no quadro verde.

Como desenhava muito bem, o Comandante deu-me a missão de desenhar a logomarca do Batalhão nas guaritas do Quartel, o que fiz com capricho, por que era a chance de não me darem outras tarefas, assim, procurei demorar-me ao máximo desenhando e pintando a granada símbolo da artilharia em cada guarita externa.

Servi em 1975. Apesar de certo abrandamento da censura à imprensa, neste ano ocorreram inúmeras prisões de cidadãos considerados ‘subversivos’. O jornalista Vladimir Herzog foi morto neste ano, sob tortura, nas dependências do DOI-CODI de São Paulo. No Quartel, os instrutores faziam uma verdadeira lavagem cerebral nos jovens recrutas alertando sobre os perigos dos ‘inimigos da democracia’, os subversivos e terroristas, a necessidade de sermos firmes e patriotas para defender o Brasil dos comunistas! Diziam-nos para desconfiar até de velhinhas e crianças, de mães chorosas por seus filhos, pois todos podiam estar sendo ‘massa de manobra’ de terroristas!

Durante uma madrugada de domingo, eu dormia, sozinho no alojamento, quando fui acordado pelo próprio Comandante de minha unidade! Aquilo não era comum, entretanto, a regra era de que ‘soldado no quartel quer serviço’, então, à primeira vista, achei que era alguma tarefa que iriam me dar. Levantei meio assustado, lavei o rosto rapidamente e vesti a farda e me apresentei. Ao comparecer ao gabinete, um susto. O conteúdo do meu armário, os livros que eu lia e minhas anotações sobre trechos que destacava, estava empilhado na mesa do comandante.

Ele foi direto ao ponto, perguntou se eu era comunista, e o que aqueles livros de comunistas estavam fazendo em meu armário! Nervoso, tentei explicar que os livros não eram meus, mas pertenciam à Biblioteca Pública Estadual e, por serem livros de empréstimo a qualquer um, achei que não tinha nada de mais em também pedir emprestado. E como não tinha onde morar, o único jeito era trazer para o quartel e guardar em meu armário! Sobre os motivos, expliquei que gostava muito de ler e que fiquei curioso sobre o que motivava os comunistas, com que tipo de gente estaríamos lidando! Disse que queria saber como pensava o ‘inimigo’ para poder combatê-lo melhor.

O Comandante então começou a ler alguns de meus comentários em voz alta para mostrar que minha justificativa podia ser falsa, pois não eram comentários de quem analisa um ‘inimigo’, mas de quem, quer ou busca se associar ao ‘inimigo’. Entre os livros, o Comandante leu um trecho que transcrevi para um papel:

“Com o predomínio sempre crescente da população urbana, acumulada em grandes centros, a produção capitalista concentra, por um lado, a força motriz histórica da sociedade, mas, por outro, dificulta o intercâmbio entre o ser humano e a natureza, isto é, o regresso à terra dos elementos do solo gastos pelo homem na forma de meios de alimentação e vestuário, ou seja, perturba a eterna condição natural de uma fecundidade duradoura da terra”. – Marx, O Capital

O Comandante me disse que eu estava preso, a partir daquele momento, e fui recolhido à prisão no próprio Quartel. Curioso isso, enquanto alguns livros me libertavam, outros me prendiam! O Comandante disse que eu deveria aguardar preso pela decisão do Comando Maior! Imaginei que seria torturado e poderia mesmo ser assassinado, como aconteceu com Herzog, e temi pelo meu futuro! Lembrava também do líder guerrilheiro Carlos Lamarca, dirigente da extinta Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um ex-capitão que desertou do Exército para abraçar as causas revolucionárias, e acabou morto, uns quatro anos antes, metralhado após ser caçado no sertão nordestino.

Não sei o aconteceu, que decisão tomaram, mas o fato é que logo depois me deixaram sair da prisão e fiquei ainda algum tempo, com a sensação de estar sendo vigiado, e logo veio a primeira baixa, na qual fui incluído. Senti-me aliviado. Entretanto, durante algum tempo ainda fiquei com a sensação de estar sendo seguido. E tenho quase certeza de que realmente fui seguido, pois conhecia os militares do serviço secreto do Exército, que trabalhavam infiltrados dentro dos movimentos sociais naquela época, e os vi duas ou três vezes por perto de mim, e aquilo não devia ser coincidência. Talvez não tivessem acreditado em mim, e achavam que mais cedo ou mais tarde eu os levaria ao meu ‘grupo de terroristas’! Depois de um tempo, acho que desistiram de mim, e passei a viver a minha vida sem medo de ser preso e torturado a qualquer instante.

Encontros e desencontros

Todo mundo aceita naturalmente que a matemática, por exemplo, de tão importante, deve ser aprendida na escola, com livros e cadernos sobre o assunto. Mas e o amor? Também é muito importante, mas ninguém nos ensina! Será que é porque acham que já nascemos sabendo amar? Se o amor é uma arte, como toda arte, ele exige teoria e prática. Em meus relacionamentos, aprendi sobre o amor que ele é importante para criar uma espécie de ponte entre diferentes personalidades. Para seduzir e manter o outro a quem amamos, precisamos aperfeiçoar o que há de melhor em nós, e não se consegue isso através da auto-anulação, mas do aperfeiçoamento de nossa própria individualidade.

"A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você" - Ralph Waldo Emerson


Também aprendi que não existe uma ‘pessoa certa para amar’. Sam Keen escreveu que "passamos a amar não quando encontramos uma pessoa perfeita, mas quando aprendemos a ver perfeitamente uma pessoa imperfeita". Príncipes encantados só existem em novelas e contos de fadas. Não existem seres humanos perfeitos. Assim como existem defeitos e virtudes em nós, também existem no outro a quem amamos. A fase de namoro, da paixão, permite-nos descobrir afinidades que farão valer a pena amar, investir no estabelecimento de vínculos permanentes, eterno enquanto dure, como escreveu nosso poeta Vinícius de Moraes.

Na fase de namoro, o jogo da sedução faz com que nos esforcemos para revelar ao outro o que temos de melhor em nós, mas é a convivência do dia-a-dia que nos irá revelar por inteiro. Não é possível representarmos um papel o tempo todo, só mostrando ao outro um lado de nós que julgamos mais bonito e melhor. Na fase da sedução exageramos nossos atributos, como um farol que lança luz sobre nossas virtudes e deixa os defeitos nas sombras. Neste sentido, o amor nos motiva, nos impulsiona a querer ser o melhor que pudermos. Por isso, amar é, sem dúvida, uma das experiências mais ricas que um ser humano pode ter.

Dificilmente nos apaixonamos pelos defeitos dos outros. Precisamos de sonho, de idealização, pois a realidade pode não ser suficientemente atraente e ao buscarmos um relacionamento queremos ser felizes, queremos viver uma situação que é diferente da situação real em que vivemos. Sem o romantismo, que idealiza o ser amado, talvez não tenhamos a energia e a disposição necessárias para romper com a inércia e então preferimos ficar sozinhos. Entretanto, romantismo demais pode atrapalhar, por exemplo, quando a pessoa idealiza com tão grande imaginação que se descola da realidade. Pessoas assim acabam se apaixonando pela idéia que fazem do outro e não pela pessoa de verdade. E é bem comum se decepcionarem quando, na convivência do dia-a-dia, se confrontam com o ser real. Pessoas românticas em excesso acham que o problema está nos outros, que não conseguem corresponder às suas idealizações.

“O amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só.” - Léon Tolstoi


Alguns defendem que o amor não acaba, mas se transforma, na melhor das hipóteses, em amizade, respeito, consideração, gratidão, amizade, ternura, afeto e, na pior, em indiferença, ódio, tédio, vazio, etc. Outros defendem que o amor acaba sim, como Felipe Machado, por que a vida é assim mesmo, imperfeita:

“Ao contrário do que dizem os poetas, amor acaba, sim. Não há nada de romântico nisso, apenas uma verdade pragmática e palpável. Quando o amor acaba, o monstro que estava escondido debaixo do tapete da sala acorda e domina rapidamente o apartamento. Frases que nunca deveriam ter sido sequer pensadas são pronunciadas com a determinação dos carrascos. Não se pode atravessar uma ponte que foi queimada; com as palavras acontece a mesma coisa. Agora os dois se olham e sabem que não têm mais o que fazer. Dentro deles há uma dor contínua, uma tristeza que sai pelos olhos. Os dois corações estão vazios, porque no lugar daquele amor todo agora não existe nada. E a vida segue assim, imperfeita.”


Entretanto, saber quando o amor acaba, ou se transforma em outra coisa, boa ou má, nunca é muito fácil, por que não é de uma hora para outra. O relacionamento começa a balançar entre bons e maus momentos, até que os maus momentos superam os bons, e aí os sinais vão ficando cada vez mais claros. Fica mais difícil ainda quando o amor acaba, se transforma, ou diminui para um, e o mesmo não ocorre com o outro.
Um dos sinais de que as coisas mudaram é quando não nos interessamos mais nem em contar sobre as novidades, e o que aconteceu em nosso dia a dia, e também não sentimos mais vontade em saber do outro, as novidades da vida dele. É um indicador de que você perdeu a vontade de compartilhar com o outro a sua vida, e que também não está mais interessado na vida do outro.

Outro sinal é quando a diversão acaba, e nem mesmo o lugar onde se está, que pode ser maravilhoso, é capaz de mudar a situação! Você não sente mais prazer em estar do lado do outro, não sente vontade de rir, de relaxar, se irrita por qualquer coisa, inicia ou dá força a brigas sem sentidos, que só servirão para afastar ainda mais o casal.

O sexo, geralmente confundido com amor, é usado como termômetro no relacionamento do casal, mas não deveria, pois sexo é uma necessidade física que pode continuar existindo mesmo depois que o relacionamento amoroso já acabou ou se transformou em outros sentimentos. Diferente de compartilhar com outro sua vida e experiências, uma necessidade espiritual. O sexo é importante num relacionamento amoroso e reforça os laços de intimidade e cumplicidade, mas não se deve exagerar o seu papel, pois diversos fatores podem influenciar na diminuição da libido que não necessariamente a falta de amor. Um simples estresse pode acabar com a vontade de fazer sexo, mesmo quando o casal está numa fase apaixonada! Por outro lado, existem pessoas que tem o sexo como vício, ou como profissão, é nem um caso nem o outro são indicativos de amor!

É deprimente e melancólico perceber que uma pessoa que você amou, com a qual conviveu e compartilhou tantos momentos, viagens, experiências, a criação dos filhos, já não o ama mais, ou que você já não a ama mais como antes. Você se sente impotente para mudar as coisas, por que não tem como mudar um sentimento. Amor, assim como a felicidade, não é algo que se compra na farmácia ou na prateleira do supermercado. Trata-se de um sentimento, e a gente não manda nos sentimentos. Podemos mudar a maneira de perceber as coisas, mudar a rotina, mudar as atitudes, mudar as palavras, mas se não houver mais amor, talvez seja tudo esforço inútil que apenas prolongará o sofrimento.

Se a primeira dificuldade é saber quando o amor acaba ou se transforma, a segunda é saber como acabar o relacionamento e, a terceira, é como superar o fim do relacionamento! Francesco Petrarca afirma que “as duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a última.” E William Shakespeare alerta que “guardar rancor é como beber veneno e ficar esperando que o outro morra”!

Hoje, procuro dar mais espaço para as minhas emoções sem precisar explicar tudo o que sinto, a não ser quando os sentimentos exigem uma explicação, pois o outro não tem de ser adivinho. Vivo um dia de cada vez, sem ansiedade pelo futuro que não domino nem sei como vai ser ou culpa por um passado que não posso mais mudar. Muito menos me sinto tão comprometido com o outro a ponto de valorizar mais os sentimentos do outro que os meus próprios sentimentos. Exercito diariamente ser mais flexível com o outro, pois são pessoas diferentes e o que deve importar não é o quanto um ou o outro tem razão, como se amar fosse uma competição para ver quem ganha, mas o quanto podemos ser felizes juntos. E, quando tenho de dizer o que o incomoda no outro, faço no momento oportuno e sempre com ternura e palavras mansas, pois o objetivo não é ter razão, mas manter a felicidade da relação. Confio na capacidade do outro em se proteger emocionalmente até mesmo de mim, afinal, quando um não quer dois não brigam - nem se amam. É um erro me fechar para novas possibilidades e insistir numa relação onde se esgotaram as chances de felicidade conjunta. Não me sinto tão responsável quando um relacionamento não dá certo, pois ninguém é obrigado a gostar de ninguém, e existem tantos nãos no mundo quantos sins.
“Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém... Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim... E ter paciência para que a vida faça o resto...” - William Shakespeare
Entretanto, não existem pessoas perfeitas, relacionamentos perfeitos, família perfeita, muito menos as pessoas têm de ser como imaginamos ou queremos que sejam, e perdoá-las é uma forma de aproveitar o melhor delas e até reforçar laços de afeto, mesmo quando pensam ou agem diferente do que gostaríamos que agissem. Novamente lembro William Shakespeare:

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso... Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos... Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. “


Gentileza gera gentileza”, escrevia pelos muros da cidade do Rio de Janeiro o Profeta Gentileza, um ‘maluco beleza’ dos tempos em que eu morava em São Gonçalo e trabalhava no Rio de Janeiro. Pela janela do ônibus era comum vê-lo pintando os muros! A mensagem é verdadeira, mas a visão é ingênua ao achar que a gentileza será capaz de tornar o mundo melhor! Lembro de políticos velhacos e corruptos que no Parlamento tratam-se uns aos outros com a maior gentileza, vossa excelência para cá e para lá, mas que na verdade são lobos em pele de cordeiro! Os estelionatários também usam da gentileza, da amizade, da beleza, da inteligência para nos conquistar e se aproximar de nós, para nos fim nos trair com seus golpes. Quando uma pessoa folgada e interesseira entra em nossa vida, por mais que você ame e seja generoso, isso não a transformará numa pessoa melhor, necessariamente. Pode torná-la ainda mais mesquinha e gananciosa. E quando você tentar se livrar ou exigir mudança vai descobrir o quanto uma pessoa assim pode ser manipuladora, pode explorar seus sentimentos de generosidade a ponto de fazê-lo se sentir culpado por cobrar mudanças, ou pode despertar um carrasco! Lembro dos inúmeros crimes passionais e também dos tristes casos de filhos e filhas que matam os pais e avós por que querem receber mais e mais! Em outubro de 2002, a estudante Suzane von Richthofen chocou o país ao confessar o assassinato dos pais enquanto eles dormiam em casa, no bairro do Brooklin, Zona Sul de São Paulo. O motivo do crime seria uma suposta oposição deles ao namoro de Suzane com Daniel Cravinhos, também envolvido nas mortes. Na mesma época, outro crime bárbaro perpetrado por um jovem de 17 anos que confessou ter matado a mãe estrangulada, afirmando que o crime ocorrera após uma discussão. Casos de violência extrema como esses mobilizam a sociedade não somente por sua natureza, mas também por refletir um desgaste nos relacionamentos familiares. Esta violência não aconteceu de uma hora para outra. Uma educação e sociedade permissivas, que cultivam o individualismo, o consumismo, a indiferença como valores, geram pessoas sem valor, sem personalidade, que acham que o mundo é como as novelas, que o padrão de vida não pode cair quando se tenta entrar no mercado de trabalho ou constituir família. O filho da família ou de uma sociedade permissiva não sabe como lidar com frustrações nem está acostumado à dificuldade e ao esforço, base da educação do caráter. O nível de violência nas ruas será menor à medida que cresça na sociedade o respeito mútuo - e este se aprende em família, com pais conscientes de que sua verdadeira missão no mundo é formar o caráter dos filhos. Claro, educar e pôr limites, exercer autoridade, dá trabalho, requer dedicação, exige de nós, por isso é um ato de amor e de doação, que nem todos os pais ou adultos estão dispostos a ter pelas crianças e jovens sob sua responsabilidade. Crescendo abandonados quase que à própria sorte, dependendo de babás despreparadas e da televisão como babá eletrônica, ou de esperança que a escola vá dar conta da tarefa de educar, não me surpreende o grau de violência e de infelicidade, e de depressão de nossa sociedade!

“O desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”. - Carlos Drummond de Andrade


Tem gente que escolhe não amar para não sofrer, então prefere viver só, ou entra nas relações amorosas com um pé atrás, geralmente em função de decepções do passado. E depois se surpreende por que ‘nunca dá certo’! O medo paralisa, mas a vida é risco! “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela” disse Charles Chaplin. Não tenho medo de correr riscos ou de sofrer. Entretanto, também não sou mais tão ingênuo e assim que percebo algum folgado tentando se aproveitar de mim, não tenho a menor dificuldade em estabelecer claramente os limites! É uma forma de protegê-las delas mesmas para que não façam estragos que venham a se lamentar mais tarde, por que ninguém que parasita outra consegue ser feliz muito menos fazer o outro feliz e não estarei ajudando as pessoas a escolherem por si próprias e serem pessoas autônomas, uteis a si próprias e à sociedade, permitindo que me parasitem de alguma maneira!

Educando para fazer boas escolhas



“Os vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da Vida que anseia por si mesma. Eles vêm através de vós mas não de vós. E embora estejam convosco não vos pertencem. Podeis dar-lhes o vosso amor mas não os vossos pensamentos, pois eles têm os seus próprios pensamentos. Podeis abrigar os seus corpos mas não as suas almas. Pois as suas almas vivem na casa do amanhã, que vós não podereis visitar, nem em sonhos. Podereis tentar ser como eles, mas não tenteis torná-los como vós. Pois a vida não anda para trás nem se detém no ontem. Vós sois os arcos de onde os vossos filhos, quais flechas vivas, serão lançados. O arqueiro vê o sinal no caminho do infinito e Ele com o Seu poder faz com que as Suas flechas partam rápidas e cheguem longe. Que a vossa inflexão na mão do Arqueiro seja para a alegria; Pois assim como Ele ama a flecha que voa, Também ama o arco que se mantém estável.” - Gibran Khalil Gibran (O Profeta)

Educar filhos não é uma tarefa fácil. Fomos educados numa época que rapidamente deixou de existir, e pela geração de nossos pais e avós, que, por sua vez viveram numa época ainda mais diferente do que foi a nossa! Ainda assim, temos de enfrentar o desafio de sensibilizar nossos filhos a serem cidadãos independentes, capazes de saber fazer escolhas entre as diversas opções e caminhos que a vida nos oferece, sabendo suportar os ônus e os bônus de suas escolhas. E como demoramos a dominar essas capacidades – se é que as dominamos inteiramente!

Não criamos os filhos para nós, mas para o mundo, bom ou mau, onde terão de viver. Logo, nosso papel como pais não é pretender transformar os filhos numa extensão de nós mesmos, de nossos sonhos não realizados, como se os filhos, ao crescerem, tivessem de serem os adultos que não conseguimos ser, em outras palavras, tivessem de seguir as escolhas que fizemos por eles. Não é impedindo que nossos filhos façam escolhas, ou escolhendo a vida inteira o que é melhor para eles, ou assumindo as responsabilidades ou os ônus das decisões deles - que os ajudaremos a crescer. Não devemos assumir para nós, mesmo que consigamos suportar, os fardos de outras pessoas, muito menos de nossos filhos, pois cada um deve ser capaz de assumir os riscos e os perigos dessa vida, responsabilizando-se pelos seus atos e escolhas, caso contrário, só irão gerar mais sofrimento inútil e não irá adquirir o necessário aprendizado moral que forja os bons seres humanos.

As crianças de hoje, ao chegarem à alfabetização, já assistiram uma infinidade de horas de televisão, centenas de imagens de assassinatos e violências, horas e horas de propaganda estimulando o consumismo. O acesso das crianças a toda essa tecnologia e estímulos de consumo, faz com que os problemas do mundo contemporâneo cheguem até elas na forma de imagens e texto, muito antes que estejam prontas para compreender e processar tantas mudanças e transformações. Por isso, sempre nos preocupamos em dosar o tempo de nossos filhos na frente da televisão, e em ler e oferecer bons livros para eles.

À medida que nossa sociedade se torna mais complexa e competitiva, crescem as exigências para formar adequadamente uma pessoa, tanto em termos de tempo quanto de recursos financeiros. Se no passado bastava garantir aos filhos uma boa formação educacional para que o acesso ao mercado de trabalho estivesse assegurado, hoje isso não é mais suficiente. E os pais ainda têm de ter a habilidade de lidar com as frustrações profissionais dos filhos procurando manter-lhes a auto-estima e entusiasmo depois de formados, diante do desemprego ou subemprego.

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” é um método ‘educacional’, infelizmente, ainda usado até hoje. Isso tem produzido mais adultos hipócritas que um mundo mais justo, pacífico e ecológico poderia suportar. A mentira não é mais convincente que a verdade, e esta é uma lição para ser ensinada através do exemplo, pois os jovens costumam observar muito mais os exemplos que as palavras. Quantas vezes os adultos falam uma coisa e praticam outra! Sem coerência o discurso perde a eficácia. Um exemplo disso é quando os mesmos pais que proíbem os filhos de ir a uma festa com os amigos, por medo que venham a usar drogas, pedem que os filhos comprem cigarros ou cerveja no mercado da esquina. E com que moral um adulto, que possui amante, pode aconselhar seus filhos a serem fiéis em seus relacionamentos? As pessoas mentem, às vezes, achando que a verdade pode magoar o outro. Ou então mentem para fantasiar a realidade e criar uma imagem de si próprias que preencha a expectativa dos outros a seu respeito. As pessoas não percebem que a mentira magoa mais que a verdade. Na hora, a verdade pode doer até mais, porém mantém a confiança no outro. Já a mentira, ao ser descoberta, além da mágoa vem também a falta de confiança, que é difícil restabelecer depois, como um vaso de cristal que, uma vez quebrado, você pode colar de novo, mas as emendas permanecerão visíveis, como um alerta para tomar cuidado!

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente." - Soren Kierkegaard


A herança genética e a herança cultural que recebemos ao longo da vida, as pessoas com quem nos relacionamos, os livros e autores que lemos, todos exercem influência sobre nós, direta ou indiretamente, com maior ou menor intensidade. Entretanto, ninguém vive a vida em nosso lugar! Para Nietzsche, “o espírito de um ser humano se constrói a partir de suas escolhas...” Conscientes ou inconscientes, somos o resultado de nossas escolhas! Quanto mais capazes estivermos de fazer escolhas conscientes, menos vulneráveis estaremos a sermos escravos ou mesmo vítimas de nossos instintos ou das circunstâncias à nossa volta. Ernani Fornari afirma que “viver consciente disso desenvolve nosso discernimento e nossa responsabilidade para com a vida, com as pessoas e com nossas atitudes.”

"Existir é mudar, mudar é amadurecer, amadurecer é criar a si próprio infinitamente". - Henri Bergson


Não existem escolas para nos ensinar a amar e ser amado, a ser feliz e fazer os outros felizes, a ser democrático, generoso, solidário, justo, sustentável... Estas lições estão no mundo, mas teremos de aprender. Às vezes aprendemos por simples observação dos erros e acertos alheios, às vezes precisamos vivenciar esses erros e acertos para aprender, e, existem situações, que se repetem em nossa vida, revelando que tem vezes que não aprendemos nem com os próprios erros, logo, tenderemos a repeti-los!

Ao vermos uma criança, um jovem, temos a ilusão de estar diante de um sujeito completo. Nada mais falso. O que vemos diante de nós é apenas a casca. A personalidade, o caráter, os sentimentos, os valores, a espiritualidade, estão fora do alcance de nossas vistas. Muitas vezes os adultos cobram das crianças ou adolescentes comportamentos de ‘gente grande’, como se fossem pessoas completas, amadurecidas, como se estivessem prontas, quando, no entanto, ainda estão se construindo.

“A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final”. - Luís Fernando Veríssimo


Educar a nova geração para a autonomia é um processo de educação também dos educadores, pois ao mesmo tempo em que precisamos nos esforçar em dar o melhor de nós, também precisamos nos educar para abrir mão do nosso poder de fazer escolhas por eles. Claro que essa transferência se dará à medida que a nova geração comprove ser capaz de escolher adequadamente entre as diversas alternativas, e demonstre capacidade em assumir os ônus de suas escolhas.

Escrevi o livro “O Desafio de Escolher” como forma de contribuir para que as pessoas possam refletir sobre suas escolhas e o papel que elas representam em nossas vidas.

Quando nascemos, até por volta da pré-adolescência, nossa capacidade de fazer escolhas adequadamente é praticamente nula. Não nascemos sabendo escolher o que é melhor para nós. Por isso, se os pais deixarem a decisão por conta da criança, ela pode preferir comer só doces em vez de legumes, feijão, arroz, dormir e brincar em vez de ir à escola etc. É uma fase em que os pais precisam tomar decisões pelas crianças, ao mesmo tempo em que devem aproveitar as oportunidades de mostrar às crianças como fazer escolhas adequadas, mostrando-lhes as suas conseqüências, para que adquiram as habilidades necessárias para fazerem suas próprias escolhas.

Na adolescência, o papel dos pais e educadores é muito importante na vida dos jovens que precisam testar seus limites e capacidade de escolhas, sem que sejam punidos injustamente ou exageradamente como a sociedade normalmente faz com os jovens infratores. É no ambiente familiar que os adolescentes poderão fazer experiências com seus pais e adultos mais próximos a fim de testar suas habilidades e saber quando estarão prontos para o mundo adulto, e não existe outra forma de testar limites a não ser ultrapassando-os, tendo de aprender também a lidar com as perdas, com as frustrações, com os ônus das decisões quando elas saem errado. Os pais são os primeiros adultos com os quais esses futuros adultos deveriam poder dialogar, trocar idéias, e mesmo enfrentar sem medo de serem rechaçados ou punidos injustamente. Neste aspecto, os conflitos entre pais e filhos não precisam ser um mal em si, se houver a compreensão de que os jovens em crescimento estão lutando para tomar suas vidas e destinos em suas mãos, embora não estejam ainda preparados para isso.

Cada um tem o seu momento próprio para migrar de autonomia nenhuma para autonomia cada vez maior de escolher o que é melhor para ele, assumindo os riscos dessas escolhas e os conseqüentes ônus e bônus. Entretanto, é natural que, tanto os pais quanto os próprios filhos sintam medo diante das incertezas desse mundo. Os pais se perguntam: “será que meus filhos estão preparados para fazer as escolhas certas? Estarão prontos para constituir uma nova família e educar adequadamente seus próprios filhos?” Tanto para os pais quanto para os filhos é difícil decidir entre a segurança de viver sob a guarda – e a tutela das escolhas - dos pais, e a liberdade de viver – e escolher a própria vida e destino – que o mundo oferece aos filhos já crescidos.

Sexo e adolescência


Nossa sociedade se esforça para ensinar sobre os perigos do sexo e sobre métodos contraceptivos, mas se esforça bem pouco para ensinar a amar, como construir uma relação afetiva com o outro. Biologicamente, por volta dos 12 anos uma pessoa já está pronta para gerar filhos, pois na natureza, quanto mais rápido houver a procriação, melhor, para garantir a perpetuidade da espécie. Entretanto, do ponto de vista cultural, as pessoas só podem ser consideradas maduras para terem filhos quando são capazes de sustentar uma família, o que hoje, com a vida difícil como anda, vai demorar bastante. O campo de batalha para o conflito entre natureza e cultura são os corpos e as mentes dos adolescentes, cheios de hormônios, prontos para o sexo, mas limitados e vigiados pelos adultos, que são os guardiões involuntários dessa necessidade cultural. Os jovens se revoltam, juram que quando tiverem seus próprios filhos irão agir de maneira diferente, mas acabam reproduzindo novamente o mesmo ciclo.

Os pais vêem os namoros desse tempo como uma ameaça à formação dos jovens – e não estão errados. Um adolescente não reúne condições financeiras nem emocionais para educar uma nova vida. É comum haver o início de um período de desentendimentos e incompreensões de parte a parte, seja por se tornarem os pais insistentes em seus alertas, ou seja, mesmo, por proibir encontros em determinados locais, na tentativa de impedir certas ‘facilidades’, ou mesmo proibir simplesmente o relacionamento. A escolha por não engravidar deve ser dos adolescentes e não de seus pais, pois não terão como vigiar os filhos adolescentes o tempo todo! Os pais devem ser capazes de sensibilizar seus filhos à compreensão do que significaria para eles, e mesmo para os futuros netos, uma gravidez indesejada ou simplesmente prematura.

Os jovens, por sua vez, sentem-se incompreendidos. “Como meus pais são capazes de dizer que me amam e se preocupam comigo, se não percebem como é fundamental meu amor por outra pessoa?” E as paixões no início da vida podem ser avassaladoras e dominar de tal forma o coração, a mente e os corpos dos jovens, que não sobra tempo para fazer mais nada direito, como se a vida só fosse possível juntos um do outro. “Se meus pais me limitam e me proíbem, é porque não percebem o quanto esse amor é importante para mim, então não me amam nem se preocupam comigo de verdade, ou me deixariam em paz para viver meu amor!”

Uma gravidez fora de hora fatalmente irá prejudicar a formação dos filhos, pois terão de assumir mais esta responsabilidade e ainda precisarão de habilidade para lidar com as frustrações e feridas emocionais que resultam de desilusões amorosas, quando um dos parceiros resolve não assumir a responsabilidade pelo novo filho. E nem sempre a gravidez é indesejada ou resulta de uma ‘camisinha furada’, pois pode ser uma escolha equivocada, mas consciente, de um dos jovens ou do casal de apaixonados, na esperança de que um bebê vá consolidar os laços amorosos, ou mesmo que o bebê irá contribuir para a formação de uma nova família, em outro lugar, longe da influência dos pais. Se os pais recusarem apoiar os filhos nesse momento delicado, estarão abandonando também os netos - que não têm responsabilidade ou culpa pelas decisões dos jovens pais.

Filhos melhores para o mundo







“Não existimos apenas para nós, e só começamos a amar-nos de verdade, e portanto a amar a outros, quando estamos plenamente convencidos deste fato.” - Thomas Merton, Homem algum é uma ilha


Geralmente os pais desejam que o mundo seja melhor para seus filhos, mas nem sempre pensam em criar filhos melhores para o mundo.

Fotos:

(1) Leonardo (com o regador nas mãos), ajudado pelo Gustavo, de camiseta branca, plantam árvores no Batalhão Florestal, em São Gonçalo (RJ), durante uma manifestação ecológica da UNIVERDE.

(2) Décadas depois, foi a vez dos meus netos, filhos do Gustavo, Lucas (de chuteiras com cadarço vermelho) e Íris (de calça clara) também fazerem a sua parte, no Dia Mundial do Meio Ambiente, durante evento de doação de mudas de árvores.

(3) Gustavo formou-se biólogo, pós-graduou-se em meio ambiente na COPPE/UFRJ, tem especialização em resíduos sólidos, e está fazendo mestrado na UFF. Seguiu minha carreira de ambientalista e acabou tornando-se coordenador na Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, mesmo cargo que ocupei por vários anos.

(4)Leonardo herdou meu lado aventureiro, o gosto pela fotografia, pela vida junto ao mar e à natureza e cursa Administração de Empresas.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Convivendo com os filhos adultos






“Muitas vezes, quando queremos estar na companhia de nossos amigos e parentes, queremos que as coisas aconteçam exatamente como desejamos. Se todas as pessoas lidassem com as relações dessa maneira, ninguém se sentiria feliz. Em vez de pensar apenas naquilo que você quer, leve em consideração também aquilo que os outros querem. Aceite que sempre haverá diferenças entre as pessoas e que, se você for flexível, poderá aproveitar melhor o encontro e reforçar os laços de afeto.” – Minetti


Penso que o que caracteriza um adulto maduro não é a quantidade de tempo que viveu, mas a sua capacidade de tomar decisões e correr riscos ao fazer suas escolhas, sabendo que terá de responder pelos ônus dessas decisões. Alguns pais passam tanto tempo escolhendo pelos filhos que se acostumam a assumir responsabilidades e tomar decisões por eles, e, nessas circunstâncias, com o crescimento dos filhos, ou os conflitos se tornam inevitáveis, ou os filhos se submetem aos pais e se tornam adultos incapazes de escolher com independência.

No passado, era comum os filhos quando adultos deixarem a casa dos pais e seguirem suas próprias vidas e os pais darem por concluída a missão de educá-los. Hoje, cada vez mais os filhos adultos permanecerem na casa dos pais, e nem sempre este é um convívio fácil ou pacífico. Como pais, passamos tanto tempo de nossas vidas educando nossos filhos enquanto cresciam, que às vezes temos dificuldades para abandonar o papel de tutores depois de criados. Como adultos, eles precisam assumir responsabilidades, podem decidir por si próprios e já não dependem tanto de nós. Se não querem fazer isso em suas próprias casas e decidem continuar vivendo na casa dos pais, devem compreender, primeiro, que casa é dos pais, e são estes que devem mandar nela, e não os filhos, pois investiram suas energias, seus recursos e seu tempo no intuito de construir um abrigo confortável e sossegado para se refugiar das agruras do mundo externo, e agora que estão envelhecendo, mais do que nunca precisam deste refúgio de bem-estar, tranqüilidade ou alegria, e nenhum filho, sob qualquer pretexto, tem o direito de prejudicar ou dificultar as coisas para seus pais, mas é exatamente o contrário. Ao escolherem permanecer na casa dos pais, devem também assumir com deveres, despesas e compromissos para tornar a casa um lugar agradável, confortável e justo.

Em qualquer convívio, tem que haver respeito e cortesia. Pessoas civilizadas se saúdam, se despedem, comunicam seus planos e as mudanças nestes, como também possíveis atrasos, com as pessoas com quem interagem, especialmente se existem vínculos familiares e o andamento da vida destas pode ser afetado. Isto vale para os jovens e também para seus pais, para que não haja ocasião para surpresas ou preocupações desnecessárias ou ocorram desencontros desagradáveis.

Esse novo pacto exigirá um novo aprendizado de parte a parte e, mais uma vez, não existem escolas para nos ensinar sobre isso, teremos de aprender com a própria vida, e nem sempre o que funcionou com outra família irá também funcionar com a nossa! Entretanto, como sempre, busco na leitura a orientação que preciso. Com Elizabeth Zekveld Portela, aprendi que os pais não têm mandato para manter controle sobre todos os aspectos da vida dos filhos adultos enquanto eles moram na mesma casa. O objetivo dos pais deve ser de educar seus filhos para a autonomia das escolhas, progredindo da fase da tutoria quase total (criança pequena) para o estágio de liberdade vigiada (adolescência) até a etapa de independência total de decisão e ação (adulto). Se os filhos adultos escolhem permanecer na casa dos pais, e estes aceitam essa decisão, é preciso estabelecer de parte a parte um novo pacto familiar, onde os filhos sabem que precisam respeitar o fato de quem manda na casa são os pais, mais os pais também devem compreender que seus filhos adultos são capazes e devem tomar suas próprias decisões e deve deixá-los arcarem com as conseqüências ou resultados, principalmente quando se trata do filho que já se sustenta. O processo de criação terminou. A fase de disciplinar acabou. Nem os pais, nem os filhos, devem querer viver numa situação em que um domina o outro, mas onde compartilham decisões, compromissos, obrigações, onde há respeito e cortesia de parte a parte.

O amor é uma questão de foro íntimo, uns tem de mais, outro tem de menos, mas o respeito nas relações é devido a todos os que decidem compartilhar uma mesma relação! Por outro lado, os pais precisam compreender que nenhum filho agirá como adulto, e muito menos se tornará um líder, se for sempre tratado como criança! Como nosso filho descreveria o seu relacionamento conosco? Sente-se sufocado? Manipulado? Fiscalizado? Vigiado? Controlado? Por demais protegido? Respeitamos o seu gosto e a sua individualidade ou ficamos insistindo que bons filhos devem ser clones dos seus pais? Damos palpites em tudo, ainda quando eles não pedem? Ficamos ressentidos e transmitimos as nossas mágoas toda vez que ele toma uma decisão ou faz algo com que discordamos? Conseguimos engolir as palavras “Eu não lhe disse…?” ou “Se tivesse me perguntado…” Ficamos plantados, emburrados, na sala até que todos cheguem a casa, não importa a hora? Estamos afirmando, encorajando e elogiando mais de que censurando, admoestando e criticando?…

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ser ecológico



Não assumi a vida como um presente só meu, mas como uma possibilidade de colaborar para deixar este mundo um lugar melhor do que encontrei! Penso que não vim a esse mundo a passeio e que o futuro não está pré-determinado, mas depende de nossas escolhas. Podemos escolher choramingar pelo limão que recebemos da vida, ou arregaçar as mangas e fazer com ele uma limonada. “Viver”, ensina Benjamin Franklin “é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz a diferença.” Para mim, apenas viver e ser feliz é pequeno e egoísta demais. Não acho que nasci para atender alguma necessidade de mim mesmo. Apesar de todas as dificuldades pessoais que tive de enfrentar, dediquei-me a tentar deixar este mundo melhor do que o encontrei, claro, na medida de minhas possibilidades e limitações.

Tive a sorte de, ao longo de minha vida, encontrar parceiros que participaram do mesmo sonho, e é em homenagem a eles que dedico esta terceira parte do livro, onde procuro falar um pouco das atividades em que participamos juntos, pedindo desde já desculpas pelos que não citei por alguma razão injustificável, e que por isso mesmo reforço o convite para que contribuam com as suas partes nessa história através do site www.escritorvilmarberna.com.br ! Sejam todos bem vindos!

"Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir." - James Lovelok


Desde a minha juventude, sempre gostei de ler sobre notícias e entrevistas envolvendo questões socioambientais. Assim acompanhava de longe as atividades do engenheiro agrônomo José Lutzenberger e seu esforço e de seus companheiros pela criação, em 1971, da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), uma das primeiras associações ecologistas a surgir no Brasil e na América Latina. Descobri na biblioteca do Novo Lar de Menores um livro do naturalista Henrique Roessler, de São Leopoldo (RS), que já nas décadas de 50 e 60 defendia o meio ambiente.

Os jornais da época refletiam a idéia de um crescimento econômico acelerado que se tornou um ponto de consenso das elites brasileiras desde que o presidente Juscelino Kubitscheck o erigiu em ideologia dominante através da palavra de ordem: "avançar 50 anos em 5". A ideologia do crescimento acelerado e predatório chegou ao paroxismo durante a presidência de Médici, quando o governo brasileiro fazia anúncios nos jornais e revistas do 1º Mundo convidando as indústrias poluidoras a transferirem-se para o Brasil, onde não teriam nenhum gasto em equipamento antipoluente, e a delegação brasileira na Conferência Internacional do Meio Ambiente (Estocolmo, 1972) argumentava que as preocupações com a defesa ambiental mascaravam ‘interesses imperialistas’ que queriam bloquear o acesso dos países em desenvolvimento.

Entretanto, em 1972, um episódio marcou a minha vida, quando deixei de ser apenas um ‘ser humano’ para descobrir-me um ‘ser ecológico’. Tinha cerca de 17 anos e estava interno no Novo Lar de Menores, em Viamão, no Rio Grande do Sul, um internato conduzido por padres católicos para menores oriundos da FEBEM gaúcha. A caça era permitida em lei, no Rio Grande do Sul, desde que em épocas próprias e sobre regras rígidas, e a Direção costumava levar os menores para caçar nos banhados da região. Influenciado pela filosofia de não-violência de Gandhi, a idéia de pegar em arma, que encantava aos outros menores, para mim parecia um absurdo! Então, me recusava a caçar, mas tinha de acompanhar o grupo, pois não podia ficar sozinho no Internato.

Assim, os instrutores me designavam para ‘tomar conta do acampamento’, enquanto meus colegas participavam da caçada com alegria. Era uma algazarra, para sorte dos animais que podiam assim se esconder e fugir, mas os tiros espalhavam chumbinho para todo lado. Era só mirar uma moita com algum movimento e depois ir catar o pobre animal vítima daquela selvageria.

Então, certa vez, vi uma família de ratões de banhado apavorados, numa moita perto de mim, como se pedissem ajuda! Meu coração ficou apertado por que me sentia impotente para salvá-los, pois os instrutores e os outros menores já vinham na direção de onde eu estava, e com as armas nas mãos. Comecei a pular e dizer para os animais que fugissem dali rápido, e vi o olhar perplexo deles, sem entender, como se pedissem socorro!

“Eu temo pela minha espécie quando penso que Deus é justo." - Thomas Jefferson


Todos ficaram muito chateados comigo por que esperavam que eu os chamasse para matar os animais, afinal de contas, era uma caçada, e ficar deliberadamente assustando a ‘caça’ não é propriamente o que se espera de um membro da ‘equipe’! Pouco me importei com as críticas, por que, pelos menos aquela família de ratões de banhado havia sido salva! O resultado é que nunca mais me levaram para caçar.

A causa dos animais inspirou-me a escrever O Tribunal dos Bichos, mas muito mais para resgatar o que há de humano em nós.

Eu me interessava por leituras sobre pacifismo, humanismo, democracia, ecologismo, entretanto, tinha dificuldade de encontrar livros sobre estes assuntos e tinha por hábito freqüentar bibliotecas onde pegava os livros por empréstimo. Um dos primeiros livros que li foi “Primavera Silenciosa”, da jornalista Rachel Carson, que se tornou um clássico na história do movimento ambientalista, desencadeando uma grande inquietação internacional sobre a perda de qualidade de vida.

Entretanto, dentre tudo o que li, na época, nada me marcou mais profundamente, a ponto de me fazer decidir por dedicar minha vida às lutas socioambientais, que a Carta do Cacique Seatle. O texto era uma resposta à proposta do Presidente dos EUA de comprar as terras dos índios, em vez de simplesmente invadir com a cavalaria e tomar à força, matando todos os indígenas, como era comum naquela época. As terras pertenciam às tribos indígenas Suquamish e Duwamish, localizadas na região de Puget Sound, no atual estado de Washington, no extremo noroeste dos Estados Unidos, fazendo divisa com o Canadá. O governo dos EUA pretendia deslocar as duas tribos para uma reserva indígena, oferecendo-lhes algumas garantias e compensações. Então, em 10 de janeiro de 1854, Isaac Stevens, Governador do Território de Washington, esteve em Puget Sound para reforçar a oferta de compra das terras. O Cacique Seattle, como era conhecido o chefe das tribos Suquamish e Duwamish, já havia lutado em inúmeras batalhas pelo seu povo e sabia que recusar a oferta do presidente americano significaria, cedo ou tarde, o extermínio de seu povo. Proferiu então um histórico discurso em que destacou a transitoriedade da existência, expressou seu profundo amor pela natureza e mostrou a necessidade de se tomar conta da terra e de toda vida sobre a terra. Era o ano de 1854, quando ainda nem existia o termo ‘ecologia’, que só foi proposto em 1869, pelo biólogo alemão Ernst Heinrich Haeckel.

“O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não ne¬cessita da nossa amizade. Porém, vamos pensar em sua oferta, pois sa¬bemos que se não o fizermos o ho¬mem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seatle diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estre¬las. Elas não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu - o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do res¬plendor da água. Como podes comprá-los de nós? Decidi¬mos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada fo¬lha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas flo¬restas escuras, cada clareira e to¬dos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na cons¬ciência do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de vi¬ver. Para ele um torrão de terra é igual a outro. Porque ele é um es¬tranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e de¬pois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai, sem remorsos de cons¬ciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece as se-pulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empo¬brecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada en¬tende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio pre¬fere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pi¬nho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vi¬vos respiram o mesmo ar - animais, árvores, homens. Não parece que o ho¬mem branco se importe com o ar que respira. Como um mori¬bundo, ele é insensível ao mau cheiro. ,,,,

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O ho¬mem branco deve tratar os animais como se fossem irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco, que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um bisão que nós, índios, matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nos¬sos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, e envenenam o corpo com ali¬mentos doces e be¬bidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, até mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos nos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos. Um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de con-fiança como o nosso.

De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer o bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças.

Continua poluindo a tua própria cama e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de aba¬tido o último bisão e domados todos os cavalos silvestres, quando as matas misteriosas fede¬rem à gente - onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinhas da torre, à caça do fim da vida e o começo da luta para sobreviver...

Talvez compreendamos se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do fu¬turo oferece às suas men¬tes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do ho¬mem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho.

Se consen¬tirmos, é para ga¬rantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez pos¬samos viver os nossos últimos dias conforme desejamos.

Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe.

Se te vender¬mos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração con¬serva-a para teus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos.

Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”


Presente à ocasião estava o médico Henry Smith que chegara a Seattle como superintendente escolar em 1853 e tinha um talento especial para idiomas, e logo aprendeu a língua dos índios. Smith verteu o discurso do Cacique Seattle para o inglês a partir das anotações apressadas que fez ali na hora. Trinta e três anos depois, em 29 de outubro de 1887, Smith publicou o discurso no jornal Seattle Sunday Star junto com um relato sobre o momento que viveu: “Cacique Seattle - um cavalheiro por instinto”. Smith deixou claro em seu artigo que a versão que publicava não era uma cópia exata do discurso original de Seattle, mas o que pôde reconstruir das notas que tomara na ocasião. Somente quase um século depois, já na década de 1970, é que o documento ganhou a dimensão de manifesto ecológico a partir da recriação livre e poética do artigo de Smith pelo roteirista e diretor do Programa de Cinema e Cultura Midiática da Middlebury College, Ted Perry, e que foi distribuída em universidades como uma forma de conscientizar os estudantes a cuidar do meio ambiente, tornando-se a versão mais difundida do que hoje se conhece como “A Carta do Cacique Seattle”.

O Cacique Seattle migrou com sua tribo para a Reserva Suquamish, de Port Madison, onde veio a falecer em 7 de junho de 1866. A cidade de Seattle foi fundada em 13 de novembro de 1851, com o nome de Duwamps sendo posteriormente mudado por David Swinson ("Doc" Maynard), um dos fundadores da cidade e principal promotor, e finalmente, o nome da cidade mudou para Seatle, em homenagem ao grande Cacique.

A partir de 1978, descobri a revista Pensamento Ecológico, do Movimento Arte e Pensamento Ecológico, editada por Luis Carlos de Barros, que reunia artigos e debates sobre temas ecológicos brasileiros e que durante um tempo foi colunista do Jornal do Meio Ambiente. Cheguei a pensar seriamente na possibilidade de me mudar para alguma Comunidade Rural Alternativa em busca de um novo modo de vida, um novo cotidiano, longe dos efeitos predatórios e egoístas gerados pelo atual estilo de vida urbano. Freqüentei os primeiros ENCAs (Encontro de Comunidades Alternativas) na intenção de encontrar alguma Comunidade, mas não consegui me adaptar ao fundamentalismo do grupo e à forte rejeição da atividade política. Num desses encontros, conheci uma revista denominada “Outra”, editada pela Cooperativa "Coovida", do Rio de Janeiro, pelo astrólogo Fernando Fernandes. Procurei pelo Fernando e acabei ajudando durante um tempo na elaboração da Revista, uma das pioneiras na mídia ambiental Brasileira.

Passei a valorizar mais meu tempo junto da natureza. Descobri a fotografia e o camping como formas de estar junto da natureza, onde eu voltava com as energias renovadas! Sempre que podia, fugia das cidades que, em certos locais, afastaram-se tanto da natureza, ao admitirem como inevitável a poluição do ar, sonora, visual, que se tornaram lugares feios e tristes.

Sempre que podia, acampava em lugares remotos da natureza ainda preservada. No Estado do Rio de Janeiro, acampava em Búzios, Penedo, numa época em que estes lugares eram pequenas comunidades cercadas de natureza à sua volta. Dessa rica experiência nasceu meu primeiro livro, “O Livro do Camping – O Prazer da Vida ao Ar Livre”, publicado pela Tecnoprint, numa tentativa de ajudar aos que acampavam a cuidarem melhor da natureza à sua volta.

“Mas, por onde eu devia começar? O mundo é tão vasto, começarei com meu país, que é o que conheço melhor. Meu país, porém, é tão grande. Seria melhor começar com minha cidade. Mas minha cidade também é grande. Seria melhor eu começar com minha rua. Não: minha casa. Não: minha família. Não importa, começarei comigo mesmo.”- Confúcio


Apesar de, para mim, as liberdades democráticas e as questões socioambientais serem interligadas, percebia a tensão entre elas. Ser democrático não pressupunha ser também ecológico. Em nome da Democracia, assisti muitos políticos tomando decisões democráticas e legítimas, mas que ignoravam os limites da natureza ou o seu equilíbrio. Por outro lado, ser ecológico não pressupunha também ser democrata. Conheci muitos ambientalistas autoritários e donos da verdade. Os nazistas eram defensores do meio ambiente e dos animais, por exemplo.

As lutas pelas liberdades eram um caminho natural para mim, que vivia preso por todos os lados. Cresci durante a Ditadura Militar, onde o silêncio era a melhor defesa, onde criticar o Governo ou suas empresas podia ser confundido com subversão ou terrorismo! As maiores empresas poluidoras como Petrobrás, CSN, eram empresas de ‘segurança nacional’. Criticar suas poluições era correr o risco de ser confundido com subversivo ou terrorista. O jornalista Randau Marques, por exemplo, em 1968, foi preso pela Operação Bandeirantes e taxado de subversivo pelo conjunto de reportagens sobre contaminação ambiental com chumbo no Município de Franca - SP, berço dos curtumes. Em seu trabalho, abordou ainda a questão dos defensivos agrícolas, seus perigos e contaminações ao meio ambiente e à população em geral.

Quando o país começou a exigir o fim da Ditadura, aderi ao movimento, como o ‘Diretas Já!’, que exigia a volta da democracia no país. Em 10 de abril de 1984, levei meus filhos Leonardo, com 6 anos e Gustavo com quatro para participarem da maior manifestação pública da história do Brasil até então, em frente a Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, onde se aglomeraram mais de 1 milhão de pessoas. Fui cedo para estacionar o carro que tinha na época, uma Variante Verde, no melhor lugar, o mais perto possível do palanque, de forma que pudesse colocar meus filhos em segurança no teto do carro, e ao mesmo tempo acompanhar os acontecimentos.

Para reprimir as manifestações, o então presidente João Figueiredo aumentou a censura sobre a imprensa e ordenou prisões. Houve violência policial. E mesmo com o apelo e pressão popular, a Emenda Dante de Oliveira, na Câmara dos Deputados, que aprovaria as eleições diretas no Brasil, foi rejeitada. Apesar da enorme frustração popular, o movimento da sociedade teve grande importância na redemocratização do Brasil, pois estava cada vez mais claro para a Ditadura instalada no Brasil que seus dias estavam contados. No ano seguinte, em 1985, o processo de redemocratização termina com a volta do poder civil, com a aprovação de uma nova Constituição Federal, em 1988 e com a realização das eleições diretas para Presidente da República em 1989.

Em São Gonçalo, participei itensamente dos Plenarinhos Pró-Constituinte, na companhia do Rebêlo e do Barros, oficiais do recém-criado Batalhão Florestal, com sede na cidade. Fizemos o capítulo de meio ambiente da Lei Orgânica da Cidade e que serviu de subsídios para a elaboração do capítulo de Meio Ambiente no Governo do Estado, através do Carlos Minc, então Deputado Estadual, e também para a elaboração do capítulo de meio ambiente da Constituição Federal, através do companheiro e deputado Fábio Feldmann, que mais tarde me indicou para ganhar o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente, antes recebido por ele próprio, pelo Minc, pelo Chico Mendes, pelo Betinho, entre outros.